
Talvez na história da humanidade nunca tenha existido um tempo assim rico de conteúdos, porém vazio de sentido. Este é o paradoxo da nossa época. Se andarmos nas livrarias, espaços culturais variados, encontraremos um sem número de títulos dos mais diversificados assuntos. A curiosidade pode muito bem ser paga entrando em tais estabelecimentos.
Os meios de comunicação se prodigalizam em fornecer, quase ao mesmo instante dos acontecimentos, imagens, mensagens, ideias, que criam a quase certeza de que participamos ali daquilo que está sucedendo. Vivemos a contínua sensação de poder estar a par daquilo que sucede. Mas será realmente assim?
Os dados desses meios de comunicação parecem desmentir esta verdade.
O acúmulo de notícias e conteúdos sem um aprofundamento crítico cria paradoxalmente uma sensação de isolamento, de angústia diante de situações por demais graves para a nossa humana e limitada compreensão. Tudo se torna motivo de incerteza, medo, terror, e por fim, a depressão. Pois o ser humano foi criado para compreender, mas dentro de uma determinada realidade. Confluir dados contraditórios e inconsistentes para nossas pobres mentes nos leva a um sentimento de extrema solidão.
A fé cristã nos propõe tal itinerário através daquilo que chamamos a História da Salvação. A razão de o nosso existir, passar por esta terra e um dia deixá-la não deve estar relegada a um louco acaso. Existe uma providência, uma realidade pessoal e superior que nós chamamos de Deus Pai, que na sua benevolência nos deu como Guia supremo seu Filho Jesus Cristo, o qual, tornando à sua morada, nos tutelou com o seu Espírito Santo que hoje como sempre nos conduz à completa compreensão da nossa terrena existência, projetada em direção a um contínuo transcender à meta eterna.
A pedagogia divina nos coloca em íntima comunhão com a experiência trinitária do amor – comunhão; mas ao mesmo tempo nos prova estimulando nossas virtudes e elevando-as com a sua graça a uma potência que não pode ser medida por parâmetros humanos. Tal pedagogia leva em conta o espaço relacional. A Sagrada Escritura, a história dos Santos, a vida da Igreja nos revelam este contínuo aproximar-se de Deus às suas criaturas, no diálogo, na íntima comunhão e principalmente na exemplaridade e qualidade de um contínuo recíproco conhecimento.
A obra, Consagra-te! Espiritualidade Mariana na vida dos santos, que estamos para ler, propõe-nos um destes itinerários. Não o único, pois seria nossa ousadia afirmar ser este o único meio para chegar à íntima amizade com Deus. Mas com uma “ponta” de são orgulho, podemos dizer que esta se põe certamente como um espaço seguro e abalizado para poder, como São João em sua primeira carta, afirmar: “aquilo que nós escutamos, aquilo que nós vimos com os nossos olhos, aquilo que nós contemplamos e aquilo que nossas mãos tocaram, o Verbo da vida” (cf. 1 Jo 1,1).
Percorrendo a vida destes homens e mulheres, normais, virtuosos e pecadores como nós, mas corajosamente se deixaram guiar pela segura intercessão de Maria Santíssima, de suas sábias palavras, de suas ponderadas atitudes, hauriremos certamente aquela salutar energia, fruto da harmônica comunhão entre graça e natureza humana, corporalidade e espiritualidade, para podermos também nos tornar espaço abençoado do agir salvífico.
Nossa Senhora se torna, então, não somente testemunha autorizada do mais profundo mistério da criação; mas certamente pedagoga, que nos conduz a desejar ardentemente que se cumpra o desígnio salvador, que se ateste a potência de amor de seu Filho Jesus, e que por fim se manifeste a glória plena do Reino de Deus.
A Filha de Sant'Ana nos convida a silenciar, saborear e amar cada situação, cada evento segundo o tempo de Deus e não aquele dos homens; sem nos prendermos a um desejo de perfeição que não se cumprirá jamais porque só a Ele pertence.
É a manifestação daquela atitude toda mariana de “conservar” no próprio coração (cf. Lc 2,51), confiante em que a presente não-compreensão da razão de tal evento não diminui a dignidade de quem a vive, mas o catapulta a um ambiente de intimidade com o mistério.
Se se puder exprimir um desejo, um augúrio para aqueles que se debruçarão sobre estas páginas, é próprio o de não se limitar a uma compreensão somente prática daquilo que se lê, pois não é simplesmente mais uma “receita” para buscar a salvação. É bem mais: entrar na intimidade d'Aquela que foi bem-aventurada desde antes da própria concepção. Significa própriamente tornar-se uma pessoa imaculada diante de Deus cf. (Ef 1,4). O que para a Filha de Sião foi um privilégio, para nós se torna um contínuo progredir, daí a necessidade de um contínuo exercício.
Que o Senhor, por intercessão de Maria e de nossos Santos e Anjos protetores, os acompanhe neste percurso privilegiado, que certamente os portará à plenitude daquela consagração recebida no Batismo.
Com fraterno e mariano afeto.
Pe. Valdo Feitosa -fsa
Coordenador maior dos Filhos de Sant'Ana
Roma, 27 de agosto de 2010
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